
Mãe
maio 28, 2018
Matemática básica
junho 4, 2018Na volta pra casa, passamos em frente ao restaurante do nosso primeiro encontro.
A pintura da fachada desgastou com a mesma intensidade que as minhas lembranças.
Vagas, porém vivas.
De lá pra cá vivemos um ritual:
Ela sempre pede um prato novo para experimentar.
Eu peço o preferido dela.
E acabamos trocando depois da primeira garfada.
Por um instante revivi dias que eram azuis e eu não sabia.
Lembrei da primeira vez que a vi adoçar o café.
Aliás, ela adoçava tudo.
O café, o suco, o chá e por fim, minha vida.
Era um tempo em que eu olhava mais pros os olhos dela do que pros ponteiros do relógio.
Quando foi que tudo mudou?
Divago enquanto minhas mãos seguram o volante tão próximas uma da outra, que parecem presas por algemas invisíveis.
Vejo o reflexo distorcido do semáforo vermelho através de uma poça d’água no asfalto.
Reduzo a velocidade. Olho para o lado e a vejo dormindo, com seu doce queixo acomodado sobre o cinto de segurança.
Também vi medos nunca superados, feridas nunca curadas e desejos nunca supridos.
Por um instante sua pele tornou-se uma vidraça, e seus orgãos, suas fraquezas.
O sinal ordena que eu siga.
É o que faço há anos.
Cuidando dela e das suas inseguranças.
Porque mudanças acontecem.
Mas sei que ao despertar, ainda serei sua inspiração, e ela, minha única certeza.
texto: Jean Suzuki





