
Escala de Baumé
dezembro 2, 2019Briga de cachorros vestidos
Ele saca uma 10 da Copa de 70 do armário, já que nem todo preto é sem vergonha, se mira no espelho e dispara, como se empunhasse uma Sig Sauer 226 nova, a lendária, no clube de tiro preferido: chegou a hora. Ama a 226 pela mesma razão que a si próprio, já que ambos não demoram e nem falham.
Num estado de fervor cívico abastecido de uma mistura de Deus, Pátria, Família, Liberdade e Propriedade estapeia-se nas bochechas até elas ficarem rosadas debaixo da tinta no rosto, metade verde, metade amarela, bolas ao redor das pálpebras, brancas como as linhas de cervejinha nasal bem alinhadas logo à frente. A nota de R$ 200 também travada, encanudada em muco e suor. Os olhos são azuis como o sangue e a embalagem de colírio para disfarçar o melhor que der. Fora STF. Pau no cu dos onze, não tem um que se salvaria no Apocalipse. Tem dois ali que tinham tudo pra dar certo, isso sempre parece que vai ter, mas não sei não. Sabotadores, Traidores, Farsantes, isso sim. A primeira linha da colombiana da boa do dia, ou da manhã, na verdade, sobe suave. Escama pura, quase um nootrópico. Esse bosteiro de Ditadura do Judiciário vai ter que acabar, por bem ou por mal, começando hoje. Por mim, por mal. Está pronto. Vamo, porra.
Bruce Banner, pitbull com pedigree, de extensa linhagem, ajeita o corpo sobre as patas na king size canina e ergue os olhos em direção ao dono. Bufa e geme. Não estranha os preparativos para sair, apenas que o, vá lá, amigo, tenha cogitado vestir hoje, logo hoje, isso que se cospe todo e xinga de focinheira humana enquanto jantam assistindo TV noite sim, outra também. Com sono, o cachorro assente em deixar a vida levá-lo para onde for. Ainda mais pelo estado de confusão do cara.
Bebeto, ou, hran hran, nove milhões de perdões fora uns quatro investidos em cripto, Alberto Savini Greco, chama o elevador da porta da sala. É um apê por andar. Recolhe as cartas do tapete fino em que deixa os calçados, feng shui em dia, sendo o feng shui a única coisa de origem chinesa que ele talvez respeite, desconfiando que um sistema tão bom tenha surgido de verdade pelo menos num Japão da vida. Entra na cabine portando o dog e uma pochete tática que se desdobra em seis bolsos até metade da coxa e que só Deus sabe o que contém. Rasga o primeiro envelope e sorri. Só a XP mesmo. Oportunidade daquelas em fundo imobiliário exclusiva para clientes e alunos. Abre outro envelope e muda logo de expressão. Nem a pau, Juvenal. Quinhentão de multa por som alto 20h30? É piada de mau gosto, né? Retorce só os cantos da boca. Esse síndico tá saindo caro, hein? Cantar o Hino Nacional agora é bagunça, seu sem vergonha? E você mediu decibel de ouvido, verme? De duas uma, talvez as duas juntas: ou odeia o Brasil ou é comunista mesmo. Sim, sim, comunista, opa. Pode ser. Por que não? Sinais mais claros que o sol: carinha redonda, língua presa mas bem soltinha pra mentir, barbinha branca. Tudo lembra o diabo. Mas a afronta não vai ficar por menos. Ele não sabe com quem está falando. Nunca pesquisou Savini no Google. Dos Greco, então, sabe menos ainda. Acha que tá falando com quem, maluco? A do mês passado por treinar sem essa porcaria de máscara na academia não bastou, agora mais uma.
Nem abre as outras cartas, desprezando até a do Graciosa, de seu mais alto interesse, ainda mais com a chegada iminente do Torneio de Squash que já conta com um buy-in extraoficial de R$ 3 mil por jogador. Elétrico dos pés ao pescoço, dobra a papelada de qualquer jeito e soca tudo num bolso vago. Sente medo, depois ridículo pela maquiagem, depois volta ao ódio padrão. Aí feliz que não tinha ninguém pelo caminho para sair do QG e entrar no perímetro da selva.
Bruce nem aí para os resmungos do cara. Só quer mesmo encontrar algumas árvores inéditas para urinar, checar o que são aqueles matinhos, talvez até, se der sorte, cheirar alguns traseiros de outros cachorros. Encontrar um resto de pizza pelo chão, um quadradinho de alcatra de algum espetinho. Mas a julgar pela marcha a que é submetido e os sons crescentes e cada vez mais misturados de buzinas de carro ensurdecedoras, gente gritando em megafones e músicas diferentes que se amontoam umas às outras, hoje a pegada é bem outra. O barulho irrita, machuca e o faz puxar a cabeça pesada para trás, quase como se pedisse que não mais, que recuem.
Descendo a Avenida João Gualberto rumo ao Centro Cívico envolto em uma bandeira do Império Brasileiro que, em capa sobre os ombros, lhe faz mais que sentir, reconhecer-se como super-herói, Alberto baba de fome de confusão. Nunca se interessou de verdade por futebol, mas sente um clima de Athletiba no ar, tanto faz seu lado desde que encontre algum idiota do outro pelo caminho. Abaixa a focinheira de Bruce, que aproveita para aquecer a mandíbula e lamber os dentes.
Param no sinal vermelho em frente ao Mercado Nacional.
Uma viatura do Grupo de Operações Especiais emparelha com a dupla. Os passageiros cumprimentam o cidadão e brincam com o K9. Pelo jeitão, vão todos para o mesmo lado. Um dos guardas quer convidá-los para uma carona, mas a falta de lugar no carro e a institucionalidade o fazem se contentar em dar tchau, até logo com avante, Brasil quando o sinal abre. É repreendido pelo superior e até pede desculpas, mas bem da boca para fora. Alberto, por sua vez, se despede com o braço direito e mão pra cima, a 45°. Sustenta o gesto por uns cinco segundos. O motorista de um Santa Cândida – Capão Raso que sobe a canaleta na direção oposta simpatiza com a bandeira grande, fica curioso, mas quando entende o movimento de braço começa a apontar para os próprios olhos e os do playboy alternadamente, dizendo tô te vendo com as mãos, triste por não poder largar o volante e descer pela portinha da frente para aplicar um corretivo naquele cara. Heil Hitler não dá, aí não.
Uma turma reunida sob a marquise do Banco do Brasil e o churrasco que armam fazem Bruce latir, alertando o dono, que o puxa com força até a lateral de uma van branca estacionada, atrás de onde ficam invisíveis.
Calma, filhão. Calma que o inimigo vem logo como? Daqui a pouco essa linguiçada vai ser toda sua. Deixa o pai pensar.
O plano é óbvio, tocar o cachorro em cima do grupo, que ele crê ser de sindicalistas, mas assim, de frente, melhor não. E o fator surpresa, como fica? Voltam um pouco na quadra, quebram na Augusto Severo, direita na Nicolau Maeder, direita de novo na Mauá. Dessa distância prudente observa os pão-com-mortadela com um sorriso de canto de boca. Mas são zé mesmo. E se trabalham nesse Bando do Brasil, são meus funcionários também. Eles bem que podiam tentar emprego no meu banco das Cayman, mas com certeza ninguém aí tem qualificação ou sequer módulo 1 de CCAA que seja para isso. Como meus empregados, também estou pagando pelo rango e pelo carvão, e quem não gostar que vou reivindicar tudo pro meu cachorro que morda as costas ou me pegue se for capaz de passar pelo Bruce. É só tentar a sorte, ué. Eu próprio não posso com comida ruim, mas ele pode.
O cachorro numa preguiça que só. O dono lança a coleira pra frente, instigando o bicho, que nem queria. Vai, pega eles, porra. Ih, rapaz, isso é sindicato mesmo? Sei lá. Minha lente da direita secou no olho e caiu. Agora tanto faz. Começou a festa, hora de dançar. Meu movimento é aqui, no dia a dia. Vou e venho livre, como quero. Até ia e sempre vou amarradão, mas na real não preciso reunir com ninguém em praça nenhuma pra discordar dos erros do mundo, ainda mais hoje, com esse erro que pulou no meio do caminho.
A turma do churrasco se assusta ao notar Bruce, que vem devagar, sim, mas bastante ameaçador, claro. A lentidão assusta, mas não paralisa Pedrinho, que ergue logo um espeto em cada mão para se defender como puder contra o bicho, como um espadachim pobre. Também não impressiona a Theo, que também tem uma pochete tática acoplada à perna, mas dentro dessa nem Deus sabe o que há. Christiane segue o exemplo, vira a grelha em cima do carvão em brasa e segura o objeto como um taco de bets para receber a visita que ninguém solicitou. De longe, Alberto não vê bem as armas dos inimigos, mas vê sim uma mulher no meio do grupo com um bebê de colo e quase se arrepende.
Uma Porsche Cayenne branca fura o sinal da esquina de cima e desce patrulhando a rua. Alberto olha o vidro baixar lento e checa a altura dos pneus. Só pode ser blindado, nível 3. 2 ou 3, acho que 3. Uma polaquinha ergue os óculos escuros, vestindo-os como tiara sobre os cabelos, emoldurada pela janela, e ele flagra um olhar tão azul quanto o seu, tão vasto quanto o céu. Algum sindicalista decide que brigar com Bruce não é uma boa e tenta adulá-lo com uma linguiça meio crua jogada longe, no meio da canaleta. O bicho, que já não queria jogo, vira as costas, se contenta com esse pouco e para na calçada pra coçar a bunda na pedra.
Alberto não sabe se fica mais revoltado com a falha da arma de guerra ou com não ter conseguido sacar o celular para anotar a placa do carro da mulher da sua vida. Deu pra ver a boa genética daqui. Fantasiou levá-la pra almoçar com os pais num domingo e depois cinema no Pátio, talvez Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis ou alguma comédia bem romântica e melosa e grudenta. Gotas de suor começam a escorrer das entradas rumo às costeletas e ele estraga a maquiagem da testa para se limpar. R, começava com R e vinha um 98 ou 89 na sequência. Era isso, né, mas era 98 ou 89?






1 Comment
Baita! Valeu por esse!